A crise do clima já faz parte do dia a dia de Divinópolis. Ela aparece nas tardes mais quentes, na chuva que rareia e depois despenca de uma vez, e nos rios que transbordam sobre os mesmos bairros a cada temporada.
Reunimos aqui 45 anos de dados públicos sobre a temperatura, a chuva, as emissões (os gases de efeito estufa que a cidade lança na atmosfera e que aquecem o planeta), a floresta e os desastres da cidade. Cada gráfico vem de uma fonte oficial e pode ser conferido. O objetivo é simples: dar ao morador de Divinópolis o que ele precisa para entender o próprio território e cobrar decisões à altura.
A temperatura máxima média de Divinópolis subiu 1,29 °C em 45 anos. O ritmo do dia (+0,28 °C por década) é quase o triplo do ritmo das mínimas da noite (+0,10 °C). E os dias de calor extremo, antes raros, viraram rotina: 2024 bateu o recorde com 211 dias acima do padrão histórico da cidade.
Por que isso importaO aquecimento global chega ao cotidiano na forma de tardes mais quentes, madrugadas abafadas e ondas de calor mais frequentes. Cada fração de grau eleva o risco de problemas cardíacos e respiratórios, sobrecarrega a rede elétrica com ventiladores e ar-condicionado, reduz a produtividade de quem trabalha ao ar livre e estressa lavouras e rebanhos. O que os termômetros de Divinópolis mostram é a versão local de um fenômeno planetário. O planeta já aqueceu cerca de 1,4 °C desde a era pré-industrial. E a cidade acompanha esse ritmo.
Alta da máxima média, estatisticamente significativa. O aquecimento é de fundo, sob a oscilação natural de cada ano.
O calor do meio-dia avança mais rápido que o das madrugadas. É a temperatura da tarde que mais pressiona a saúde, o consumo de energia e a produção rural.
O número oscilava em torno de 150 dias por ano até a virada da década. 2023 e 2024 romperam o padrão, 173 e 211 dias, e marcam a chegada do calor extremo como rotina, não exceção.
A chuva de Divinópolis está diminuindo, década após década. São cerca de 5,6 mm a menos por ano, somando uma perda de 247 mm em quatro décadas, o equivalente a dois meses de chuva que sumiram do calendário. O que resta caiu de forma cada vez mais irregular: o ano mais seco (857 mm, em 2014) e o mais chuvoso (2.280 mm, em 1983) estão separados por mais de um ano inteiro de chuva.
Por que isso importaUm clima mais quente mexe com o ciclo da água. A atmosfera aquecida evapora mais e desorganiza o regime de chuvas, alongando a estação seca e concentrando o que chove em episódios curtos e violentos. Para Divinópolis, menos chuva ao longo do ano pressiona o abastecimento de água, a geração de energia e a agricultura; quando a chuva volta concentrada, cresce o risco de enxurrada. É o paradoxo climático do “mais seca, mais alagamento”, duas faces do mesmo desequilíbrio. A própria região já registrou umidade do ar em níveis de deserto no auge da estiagem.
Barras abaixo de zero (laranja) são anos mais secos que a média. A inclinação para baixo confirma a perda de chuva no longo prazo.
O regime é fortemente sazonal: o trimestre junho–agosto mal chega a 50 mm somados, enquanto dezembro e janeiro concentram o grosso da chuva, o que torna a estiagem e os veranicos mais críticos.
Em 2023, Divinópolis lançou 540 mil toneladas de CO₂ equivalente na atmosfera, cerca de 2,3 toneladas por habitante. É bem abaixo da média brasileira, de cerca de 11 toneladas por habitante (SEEG), e um terço da média mundial, de cerca de 6,6 toneladas. A explicação está no perfil da cidade, urbano e de serviços, sem grande indústria pesada nem desmatamento em larga escala. O perfil é estável e concentrado: desde 2007, início do recorte do gráfico abaixo, a energia domina (59% naquele ano, 59% hoje), e dentro dela os transportes sozinhos respondem por 45% de tudo que a cidade emite. As mudanças do período ficaram nas margens: o uso da terra, que pesava 10% em 2007, caiu para 5% em 2023, enquanto os resíduos subiram de 11% para 16%.
Por que isso importaOs gases de efeito estufa são a causa do aquecimento, e as emissões têm endereço. Saber de onde vem o carbono de Divinópolis é o que permite agir. Se a maior parte sai do transporte, é ali que uma política climática local rende mais. Reduzir emissões é decidir como a cidade se move, produz e consome energia nas próximas décadas, com efeito direto na qualidade do ar.
O transporte rodoviário é a chave de qualquer política climática local. Mexer nele é mexer na maior parte das emissões da cidade.
Entre os vizinhos, o tamanho varia, e varia também a origem do carbono. Os dados são de 2023. Arcos emite 836 mil t, mais que Divinópolis, com menos de um quinto da população: 58% vêm de processos industriais, porque ali fica o polo de cimento e cal do calcário do Alto São Francisco, daí as 20 t por habitante. Em Formiga (que emite 459 mil t) e Pará de Minas (374 mil t), a agropecuária lidera e a energia vem logo atrás. Rebanho, granjas e pastagens pesam mais que o diesel.
Itaúna, com 292 mil t, e Divinópolis, com 540 mil t, têm o perfil mais urbano da vizinhança. Metade ou mais do carbono sai da energia, sobretudo do tanque de combustível. Já no topo do ranking mineiro os motivos são outros: Vespasiano (cimento na Grande BH), Belo Horizonte (o peso da frota e do consumo de uma capital) e Ipatinga (siderurgia). Ler o setor dominante de cada cidade ajuda a saber onde a política climática local rende mais.
Em 1985, a vegetação nativa cobria 31% de Divinópolis, cerca de 219 km². Em 2024, cobre 17%, ou 121 km²: uma perda de 45%. A mata que sumiu nesses 40 anos (98 km²) daria para cobrir uma vez e meia toda a área urbana atual da cidade. No mesmo período, essa área urbana quase dobrou (de 35 para 65 km²) e a pastagem se firmou como o uso dominante, ocupando metade do município. A floresta que volta a crescer (regeneração) ajuda, mas não repõe o que se perdeu: descontada a regeneração, o saldo histórico é negativo em 35 km². Nos gráficos abaixo, as áreas aparecem em hectares (ha); 100 ha equivalem a 1 km².
Por que isso importaVegetação e clima andam juntos. A mata guarda carbono, segura a umidade, protege nascentes e ameniza o calor das cidades; quando ela vira pasto ou asfalto, esse carbono volta para a atmosfera e o solo perde a capacidade de reter água, o que realimenta o aquecimento e a irregularidade das chuvas dos capítulos anteriores. A perda de floresta em Divinópolis é, ao mesmo tempo, causa e consequência da mudança do clima: menos verde hoje significa uma cidade mais quente e mais seca amanhã.
O satélite também enxerga o interior da cidade. Dos 5.400 hectares construídos de Divinópolis, o verde cobre 17,3%, a 14ª posição entre os 46 municípios da região (mediana: 15,5%). Mais delicado: 765 hectares do que está construído ficam sobre zonas naturalmente inundáveis, e 43 hectares são favelas e ocupações precárias: Divinópolis e Itaúna são os únicos municípios da região onde o satélite as identifica. É o retrato de onde calor, enchente e vulnerabilidade se encontram no mesmo endereço.
Barras em proporção da área construída. Os critérios são do MapBiomas Urbano: zona de inundação é o terreno até 3 metros acima do curso d’água mais próximo, o fundo de vale que o rio ocupa quando enche; encosta íngreme é a declividade acima de 30% (cerca de 17°), na qual o terreno sobe 30 cm a cada metro e o solo saturado tende a deslizar. Os 765 ha sobre zonas inundáveis conversam direto com o capítulo 06: é onde os desastres hidrológicos batem primeiro. E o verde urbano é a ferramenta mais barata contra o calor do capítulo 01: cada praça e quintal arborizado desconta décimos de grau da tarde. Compare estes números com os dos vizinhos na aba Cidade do explorador.
OAdaptaBrasil é a plataforma do governo federal, mantida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que estima o risco climático de cada um dos 5.570 municípios brasileiros.
O sistema reúne modelos climáticos do IPCC, o painel de cientistas da ONU, e dados oficiais de saúde, saneamento, população e infraestrutura para responder a uma pergunta: onde o clima que vem por aí deve causar mais dano até 2050?
O resultado é o risco projetado, uma nota de 0 a 1 para cada ameaça (água, alimentos, doenças, enchentes, deslizamentos, bioma), que combina três fatores: a força do fenômeno climático esperado, quanta gente e quantos bens estão no caminho dele e a capacidade da cidade de resistir.
É uma leitura de futuro, e por isso deve ser lida separadamente da temperatura e da chuva já observadas anteriormente. Em Divinópolis, os indicadores mais altos estão na saúde: leishmaniose visceral (0,90, muito alto), arboviroses como a dengue (0,77) e malária (0,79), todos com projeção de piora. Em seguida vêm o estresse hídrico e o acesso a alimentos, ambos altos.s.
Por que isso importaProjeções de risco olham para a frente. Cruzam o clima que vem por aí com a realidade de cada cidade, quantas pessoas vivem expostas, quão preparado está o sistema de saúde, como está a infraestrutura. Funcionam como bússola para decidir onde investir hoje e evitar o pior amanhã. Em Divinópolis, apontam a saúde como a fronteira mais urgente da adaptação. Doenças como dengue e leishmaniose, avançam justamente onde o clima fica mais quente e úmido.
Como o índice é calculado. Cada nota resulta do cruzamento de dezenas de indicadores organizados em três níveis: do risco geral (nível 1) até os componentes detalhados de ameaça, exposição e vulnerabilidade (nível 3). São projeções, cenários de probabilidade construídos a partir de modelos climáticos do IPCC, e não previsões exatas. Servem para orientar políticas de adaptação e priorizar investimentos. Os valores em destaque referem-se ao risco atual; as projeções de 2030 e 2050 seguem os cenários intermediário e severo de emissões. Os dados podem ter defasagem em relação à versão mais recente da plataforma. Metodologia completa em adaptabrasil.mcti.gov.br.
O Atlas Digital de Desastres no Brasil, que reúne os registros oficiais da Defesa Civil (S2ID), contabiliza 12 desastres em Divinópolis desde 1997. Não houve mortes, mas 2.421 pessoas foram desalojadas e 147 ficaram desabrigadas. Sete dos doze eventos são hidrológicos: enxurradas, inundações e alagamentos. Os anos de 2012 e 2022 concentram os piores episódios, com quase 900 desalojados cada, e quase metade dos desastres se acumula a partir de 2021.
Por que isso importaDesastres são o momento em que o clima vira manchete e prejuízo. A concentração de eventos hidrológicos nos últimos anos conversa direto com o que observamos em relação à chuva: um regime mais irregular despeja muita água em pouco tempo sobre uma cidade que cresceu perto de rios e fundos de vale. Cada enxurrada é também um teste do preparo da cidade, e um lembrete de que adaptar-se ao clima significa proteger, primeiro, quem mora nas áreas de risco.
Cada risco deste painel já tem resposta conhecida e testada. São frentes que dependem de planejamento, orçamento e, sobretudo, de pressão pública para sair do papel.
Com a chuva caindo 247 mm e o estresse hídrico em nível alto, ganham urgência a proteção de mananciais, o reúso de água, a recuperação de matas ciliares e a captação de água da chuva.
Os maiores riscos projetados são doenças sensíveis ao clima. A resposta passa por vigilância epidemiológica, saneamento, controle de vetores e eliminação de criadouros, com mais força no calor crescente.
Sete dos doze desastres são de água. Drenagem sustentável, mapeamento e desocupação de áreas de risco e sistemas de alerta antecipado reduzem o número de desalojados a cada temporada de chuvas.
Com a mata nativa pela metade e o calor do dia subindo, a restauração florestal, a arborização urbana e a criação de áreas verdes combatem ao mesmo tempo as ilhas de calor e a perda de biodiversidade.
Reportagens da doClima, plataforma de inteligência climática por trás desta editoria, sobre ideias curiosas e já testadas mundo afora.
Dado não muda nada sozinho, cobrança muda. Escolha para quem vai falar e sobre o quê: a ferramenta monta uma mensagem pronta, com os números desta reportagem e a fonte de cada dado, para você enviar à Prefeitura, à Câmara ou aos seus representantes no estado e na União.
Nenhum dado desta reportagem foi coletado por nós, tudo é público, oficial e rastreável até a fonte. O trabalho da doClima – nossa parceira nesse projeto foi reunir seis bases que não conversam entre si (satélite, inventário de emissões, mapeamento do solo, projeções de risco e registros da Defesa Civil), recortar cada uma para o território de Divinópolis, padronizar períodos e unidades, calcular as tendências de longo prazo e traduzir o resultado em reportagem. Cada número pode ser conferido na base original.
Esta reportagem nasceu de dados abertos que existem para todo o país. Em doclima.com.br você encontra o mesmo raio-x climático para os 5.570 municípios do Brasil: temperatura, chuva, emissões, floresta, risco projetado e desastres, sempre de fontes oficiais. A doClima é uma iniciativa de inteligência climática que transforma dados científicos em informação de utilidade pública, pronta para virar reportagem, política pública e cobrança.
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